LocomotivaSó
Triste
Com frio
Não pude suportar mais
Aquele lugar infernal
Anos de abuso e terror
Apenas o ódio para me aquecer
Como tapas na face
Fustigada pelo vento
E geada da indiferença
Minhas rugas de 17 anos
Sangrando de fome e sede
Fugi
A rua acolhedora
Proveu-me do que precisei
Roupa usada e comida descartada
Pelo tempo suficiente
Para juntar o dinheiro necessário
Vendendo apenas aquilo
Que tinha para oferecer
Um último cliente
Banhei-me do sangue e sujeira
Comprei a passagem
Segui
Vagão vazio
Tantas cidades passam pela janela
Nenhuma aconchegante o suficiente
Ninguém que me alente
Porém as montanhas brancas da paisagem
Mostram-me o que nunca enxerguei
Que minha felicidade não está em um lugar
Mas no meu movimento contínuo
Por isso sigo neste trem
Que corre as montanhas nevadas
Centenas de anos depois
Continuo
Não só
Pois a neve me acompanha
Não triste
Pois o pavor dos vivos me alegra
Não com frio
Pois o carvão etéreo da fornalha me aquece

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