segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Nossos dias juntos



Nossos dias juntos

Em um quarto de cortinas azuis
O vento frio da noite envolve
Nossos corpos enredados
No início de que sabemos ser
Nossos três dias de paraíso
Nós nos divertimos
Nós nos satisfazemos
Nós nos tornamos um
Na eternidade fugaz do orgasmo
De pernas entrelaçadas
De peitos e mãos unidos
De cumplicidade e desejo
Mas sabemos da verdade
Nossos dois dias de delícia
Estão fadados ao fim
A cada beijo nosso
Os segundos se vão
A cada carícia dada
Os minutos se afogam
A cada união física
As horas se suicidam
E o término do nosso único dia
Baforeja em nossas nucas
Arrazando qualquer tentativa
De felicidade e desprendimento
O ar fechado do ônibus separa
Nossos corpos distantes
Nossas lágrimas incontidas
Banham o esperado início
De nossos dias de inferno
Longes um do outro
Sem data para fim
Com apenas boas lembranças
De momentos inesquecíveis
Provando que aqueles dias
Foram de verdade
Nos mantendo fortes
E nos fazendo acreditar que
As areias do tempo devolverão
Nossos dias juntos

domingo, 3 de maio de 2009

E eu te encontro

E eu te encontro

E finalmente eu faço sentido. Eu começo a me entender melhor e viver mais. Eu faço tudo aquilo que todos sempre sonham a vida inteira. Eu acordo com você. Eu cozinho para você. Eu sou mimado por você. Eu cresço ao seu lado. Eu me estabeleço com você. Nós nos deitamos sob as estrelas e você me mostra Vênus e eu sei que eu sou feliz. Sempre você. Sempre igual. Sempre nós dois.

E eu caio.

Nessa felicidade monótona eu me esqueço de regar a paixão. E você encontra outra fonte longe de mim. E eu me desespero na inconstância do novo. Do desconhecido. Do incompreensível. Eu sou só eu. E você é nós sem mim. E eu choro sob as estrelas que nos iluminam a distância. E percebo que mesmo estando quebrado eu ainda estou aqui. Sob a proteção de Vênus. Sozinho. Eu. Sempre.

E eu tento.

O tempo me ensina que eu nunca estou só. A lembrança do que fomos está sempre comigo. Torcendo. Fortalecendo. Acompanhando meu progresso. Nós sempre vai estar dentro de mim. Até mesmo no dia em que nós formos eu sem você. Agora tudo novo. Agora tudo melhor. Porque eu finalmente entendo o que eu devo fazer. Vênus me mostra o caminho. Sempre eu. Sempre em frente. Nunca só.

E eu caminho...

sábado, 11 de abril de 2009

Bocas anônimas


Bocas anônimas

Nossos braços se enroscam nos pêlos um do outro. A batida forte dos instrumentos eletrônicos mexe com nossa libido. Você me olha impassível. Eu devolvo o olhar, e requebro meu quadril por toda a sua perna, pressionando meu eu intumescido na sua coxa. Coloco minha mão no fim das suas costas e você se segura na minha camisa. Nossos olhos se encaram sem dizer nada. Eu sorrio. E você toma o primeiro passo. Lábios macios e quentes. Um leve sabor ácido de cigarro. Língua úmida e aveludada. Maxilar duro e áspero. Nós nos sentimos. Esfrego meu sexo no seu. Puxo seu cabelo. Sugo sua língua. Nos tornamos um pela eternidade de uma música. Um doce sonho interrompido pelas mãos do destino. Ficando o desejo de mais, na ansiedade de experimentar o que não deu tempo. Partes não tocadas. Técnicas não aplicadas. Nomes não ditos. Eu fiz minha parte e você fez a sua. Neste duelo de bocas anônimas, ambos ganhamos e perdemos. Mas esta é apenas a primeira batalha. Vamos à guerra.

domingo, 29 de março de 2009

O jogo

O jogo

Arrasto-me pelo chão
Lambuzo-me na sujeira
Excito-me pelo cheiro
Do suco melado
Que sai de sua virilha
Tic

Suas pernas abertas
Velhas conhecidas minhas
Seus mamilos endurecidos
Dão-me boas vindas
Mas não reconheço seus olhos
Tic

Retiro a vestimenta de couro
Inebrio-me com meus odores
Minhas mãos abrem caminho
E invado seu templo puro
Com arremetidas animalescas
Tic

Seus membros sangram
Atados às correntes
Contorcendo-se de dor
Sufocando seus gritos de pavor
Na boca cheia de meus dedos
Tic

Rasgo seus seios com meus dentes
Risco suas nádegas com minhas unhas
Lambo seu rosto choroso
E inundo seu interior
Com meu leite profano
Tic

Você me ajudou a me esquecer
Do quão podre e vil sou
Mas no jogo da roleta de hoje
Foi sua vez de perder
Querida não-voluntária anônima
Bang

domingo, 15 de março de 2009

Inveja

Inveja

Me olho no espelho. A raiva contorce meu rosto envelhecido de vinte e quatro anos. Minhas feições são sérias, mas belas. Meus olhos cheios de ódio são extremamente sensuais e assustadores. Meu corpo firme reflete minha nudez física e espiritual. É chegada minha hora. Subo na cama. Suas mãos e pés atados à cama. Pílulas lhe deixam letárgico e teso. Você me pergunta por que faço isso. Eu lhe masturbo com raiva e desejo. Você luta contra seu corpo semi-adormecido para se livrar das amarras. Implora para parar com esta brincadeira sem graça. Eu lhe chupo com volúpia e insiro dois dedos no seu ânus. Você chora ao ser violentado. Eu gemo ao cavalgar seu pênis e arranhar seu peito até sangrar. Minhas costas sobem e descem enquanto seguro sua cabeça para olhar dentro de seus olhos durante todo o processo. Gozamos. Você, em convulsões de prazer e arrependimento e frustração e humilhação. Eu, em satisfação. Me levanto após estapear e cuspir no seu rosto. Verifico se a câmera registrou tudo. Acho que a vaca da sua namorada vai adorar esta singela filmagem. Você não me quis. Preferiu aquela vadia. E eu tive que assistir a toda essa felicidade sem poder dizer nada. Não é justo que apenas eu sofra. Agora, estou em paz. Pois mesmo que aquela piranha consiga perdoar e você ainda tenha coragem de olhar para a cara dela depois disto tudo, sempre que ela olhar para seu peito, ela vai ver a minha marca. E sempre que você quiser comê-la, ela vai ver a minha barba por fazer entre suas coxas.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Você

Você

Você abre a porta do seu quarto e joga a sua jaqueta favorita em uma cadeira. Ela acende a luz e diz que gostou muito do estilo da sua casa, pelo menos da parte que ela viu. Você tira a sua corrente de prata e a coloca delicadamente na mesa. Ela fala e fala e fala. Você se olha no espelho sem saber o que fazer e, pela primeira vez na noite, ouve alguma coisa. Uma música. A nossa música. Ela estava dizendo o quanto gosta desta canção enquanto olhava a sua coleção de cd. Você tira a sua camisa branca banhada no perfume que nós escolhemos juntos e na colônia vagabunda dela. Ela se excita e desce o zíper do vestido carmim, expondo a lingerie negra. Você se aproxima e solta os longos cabelos negros dela, e se lembra dos meus. Ela admira seus músculos e arranha seu peito. Você solta o sutiã e ela pressiona os seios firmes em você. Ela desafivela o seu cinto e você aperta os quadris dela. Você termina de tirar a calça e ela se livra dos sapatos. E pela primeira vez desde que começaram este ritual, você olha nos olhos azuis dela. E neles, você não se vê como você se via nos meus olhos castanhos. Ela sorri maliciosamente, aprovando o que ela vê, e avança. Vocês se enroscam na cama que eu trouxe para sua casa quando me mudei. Você entra na boca dela com sua língua e ela aperta a sua nuca com força e desejo. Mas sou eu quem você beija. É o meu sabor que você sente. Ela se desgruda de você e os beijos dela descem pelo seu peito e abdômen. Mas no espelho em frente a sua cama, quem está entre suas pernas sou eu. Você a joga de costas e a penetra com vigor. Ela geme e grita e arfa. Mas o hálito no seu pescoço é o meu. O sabor do suor na sua boca é o meu. O corpo tremendo de prazer sobre o seu é o meu. Ela goza até desfalecer, mas você não sente nenhum prazer ou alívio. Enquanto ela dorme coberta pelos lençóis que eu dei no seu aniversário, o volume um pouco mais alto da nossa música encobre os sons que você faz enquanto vomita no banheiro. Você está com nojo de si próprio. Cada poro da sua pele que eu tanto admirei exala um odor que você repugna. Você tenta se limpar no chuveiro, mas sabe que não importa quanta água corra pelos seus pêlos, nem quantas lágrimas lambam seu rosto envelhecido pela tristeza, você está marcado para sempre pela minha presença. Você sabe que me perdeu e que foi escolha sua. E por isso o ódio que você sente é maior ainda, pela sua covardia e estupidez. Você se seca na nossa toalha, mas sabe que o meu cheiro não está mais lá. Você pega o nosso perfume, só para perceber que ele acabou. No quarto, você pára o rádio. Nunca mais vai ouvir a música que eu escolhi para nós com tanto carinho. Você sobe nu na cama e descobre o corpo dormente dela. Ela acorda com você a invadindo por trás e a puxando pelos cabelos. Ela está feliz por ter encontrado um amante tão fogoso. Você não sente absolutamente nada. Está morto por dentro, apodrecendo a cada metida. Apenas desempenhando o papel que designou para si próprio. Para sempre acompanhado pelas lembranças da época em que você foi meu e eu fui seu.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ilusões marinhas

Da série: Do fundo do baú (01/04)

Ilusões marinhas

Sinto a brisa do mar soprar no meu rosto
O odor salubre atiça lembranças de um passado inexistente
Lembram o frescor dos seus lábios e o gosto do seu suor

O vento acaricia meu rosto e meus cabelos com mãos suaves, mas firmes
O mormaço úmido esquenta a minha pele em um abraço sensual e cúmplice
As copas das palmeiras dançam uma canção rítmica, monótona e hipnotizante
As folhas das árvores regem a orquestra dos pássaros que tocam uma lenta melodia que me deixa melancólico e sonolento
As ondas sobem e descem na areia da praia delicadamente

E eu me pergunto onde você estará e o que estará fazendo
E sonho...

Beijos ardentes e úmidos
Pele e pêlos quentes e envolventes
Embebedo-me em fantasias impossíveis
Uma lágrima corre pela minha bochecha
E o mar se entristece comigo

O vento não sopra mais...
O mormaço não abrasa mais...
As palmeiras não dançam mais...
Os pássaros não concertam mais...
As ondas não invadem mais...

O sol laranja se esconde no horizonte com vergonha da minha tristeza
E dá lugar à lua cheia, meu naipe regente

Algumas nuvens fugazes tentam nublar a minha mente, mas falham
Você ainda brilha soberanamente na minha noite sem estrelas
Dentro de sua redoma prateada, o coelho se reflete no mar sem ondas
E enquanto assisto passivamente seu passeio
Contemplo
E espero
Pelo dia em que
Delírio
Possamos eclipsar a imensidão do oceano

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O bosque

Da série: Do fundo do baú (09/03)

O bosque

Ouça o som, consegue ouvir a voz do vento? Ele está dizendo que nosso amor é para sempre. Ele fala suave e gentilmente, do jeito que você faz. E eu adoro me sentir abraçado pela sua voz rouca e quente quando sussurra ao meu ouvido tudo o que você quer, desde um simples beijo até as coisas mais provocantes e obscenas. Olha o sol, alto no céu. Hoje é um lindo dia ensolarado, mas não está muito calor, apenas o suficiente, como quando mo abraçou forte naquele dia em que descobrimos aquele sentimento novo e maravilhoso. Sinta o perfume das flores, suave e doce, como seus beijos e seus lábios pequenos que eu adoro beijar e morder e sentir me beijando, e quando você faz isto eu me sinto derreter. Toque a água do lago, pode sentir a força da correnteza? É como você quando quer alguma coisa, e eu adoro sentir a sua força e me subjugar a você e seus joguinhos safados só para satisfazer o seu prazer. Vem, senta na grama verde comigo e veja todas estas árvores. Sempre juntas, como você e eu. Elas vêm de sementes diferentes, mas estão destinadas a ficarem juntas até o fim de suas vidas na Terra. Eu não quero ficar nem um minuto longe de você e estes seus pequenos olhos castanhos que me fascinam e seu hálito doce e seu perfume suave e seu abraço forte e decidido e o nosso amor quentinho. Eu já não sei mais viver longe de você, e eu gosto disto. Eu quero sentir a sua pele deslizando na minha, quero sentir as suas unhas arranhando as minhas costas, quero sentir os seus dentes mordendo o meu ombro todo dia, para sempre. Será que já conseguiu entender porque eu trouxe você para este bosque? Foi só para dizer que eu te amo, e que eu serei seu até quando não tiver mais consciência de mim mesmo e deixar de respirar e voltar para te encontrar novamente enquanto o tempo continuar a girar.
“Eu também te amo.”
“Eu sei. Me beija”

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Jazz e Cosmopolitans

Jazz e Cosmopolitans

O som do baixo inunda meus sentidos. A melodia suave e descompassada flutua na noite e me carrega. Meu corpo nebula no chaise lounge. Meus olhos desfocados não vêem os carros passando apressadamente pela Avenida Paulista. Meus dedos amolecem ao levantar a taça. Meus lábios entorpecem e se liquefazem com o contato da bebida rosada. Minha mente sublima todo tipo de contato externo. O teclado dança e rodopia e eu me desfaço em vodca e suco de cranberry. Sinto fumaças e odores caros e pretensiosos. Ouço conversas inúteis e risadas confidentes. Noto lábios vermelhos e quadris volumosos. Tateio veludo azul e gelo amornado. Percebo o ácido na boca e o seco na garganta. Afundo neste lago turvo de música e me deixo levar na correnteza bravia que me molha e me arrebata e me afasta de mim mesmo. A batida forte da percussão me tira de meu devaneio e me foco pela primeira vez desde que entrei neste bar. Você entra pela porta de vidro e finalmente a melodia começa a fazer sentido. Sua indumentária agrada meus gostos mais selvagens. Seu perfume me entorpece e domina. Sua voz me acaricia e me aquece e me arrepia. Mas nada se compara a seu mais pungente atributo. Seu beijo forte e macio enfeitiça meus sentidos arrebatadora e orgasmicamente. Nossos Cosmopolitans brindam e celebram. Pois nesta noite, neste bar, nada e ninguém mais importa. Apenas eu, você e a lua crescente.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A busca

A busca

O cheiro de sálvia e hortelã adentra minhas narinas. O suave e levemente frio vento noroeste acaricia meu rosto. A grama verde e úmida sustenta meus pés e me dão base. O brilho da minha estrela patrona anuncia a hora da partida. A grande e misteriosa lua branca ilumina meu caminho recém descoberto. Meu corpo vibra a cada passo em direção ao meu destino. Cada centímetro que avanço dispara uma engrenagem da onipresente ampulheta e um pedaço de meu passado se desprende e se perde na imensidão deste campo. Não olho para trás ao sentir o calor deixado pelos flocos incandescentes de amargura e arrependimento. Meu rastro queima a ponta de meus cabelos soltos e depois é engolido pelas campinas de narcisos dourados e lírios translúcidos nesta senda sem retorno. Animais silvestres e salamandras selvagens me observam sem medo enquanto adentro seus territórios e me transformo em outro ser. Em certos momentos eu caio e me machuco. Sangro vermelho e adocicado por fora e quente e veludo por dentro. Mas em nenhum instante esmoreço em minha busca. Minha aparência externa continua a mesma para simples olhos mortais. Minhas mudanças internas somente notadas por magos e ciganas me dão força para continuar pelo meu objetivo maior. Cruzo vales e colinas verdejantes e primaveris. Atravesso florestas densas e extensas. Nado rios bravios e subo cachoeiras e cataratas perdidas. Corto blocos de gelo perpétuo e encontro aquilo que busquei por tantas eras mágicas. Minha alma purificada e banhada de toda a mentira da existência desvela as cortinas desta alcova diáfana. No cerne da mais profunda caverna. Guardado por ursos ferozes e generosos e fadas traiçoeiras e invejosas. Protegido por barreiras de fogo fátuo e correntes de diamante. Envolto em puro ácido e luz. Meu coração. Pela primeira vez em minha breve existência milenar toco meus mais sinceros sentimentos e emoções. E após tantas luas nesta jornada mística pela busca do meu EU, percebo que é hora de partir. Vou à busca do conhecido. Do comum. Do vulgar. Algo que nem todo o brilho mágico destas terras arcanas pode prover. Amor. A verdadeira caminhada começa agora.