segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O bosque

Da série: Do fundo do baú (09/03)

O bosque

Ouça o som, consegue ouvir a voz do vento? Ele está dizendo que nosso amor é para sempre. Ele fala suave e gentilmente, do jeito que você faz. E eu adoro me sentir abraçado pela sua voz rouca e quente quando sussurra ao meu ouvido tudo o que você quer, desde um simples beijo até as coisas mais provocantes e obscenas. Olha o sol, alto no céu. Hoje é um lindo dia ensolarado, mas não está muito calor, apenas o suficiente, como quando mo abraçou forte naquele dia em que descobrimos aquele sentimento novo e maravilhoso. Sinta o perfume das flores, suave e doce, como seus beijos e seus lábios pequenos que eu adoro beijar e morder e sentir me beijando, e quando você faz isto eu me sinto derreter. Toque a água do lago, pode sentir a força da correnteza? É como você quando quer alguma coisa, e eu adoro sentir a sua força e me subjugar a você e seus joguinhos safados só para satisfazer o seu prazer. Vem, senta na grama verde comigo e veja todas estas árvores. Sempre juntas, como você e eu. Elas vêm de sementes diferentes, mas estão destinadas a ficarem juntas até o fim de suas vidas na Terra. Eu não quero ficar nem um minuto longe de você e estes seus pequenos olhos castanhos que me fascinam e seu hálito doce e seu perfume suave e seu abraço forte e decidido e o nosso amor quentinho. Eu já não sei mais viver longe de você, e eu gosto disto. Eu quero sentir a sua pele deslizando na minha, quero sentir as suas unhas arranhando as minhas costas, quero sentir os seus dentes mordendo o meu ombro todo dia, para sempre. Será que já conseguiu entender porque eu trouxe você para este bosque? Foi só para dizer que eu te amo, e que eu serei seu até quando não tiver mais consciência de mim mesmo e deixar de respirar e voltar para te encontrar novamente enquanto o tempo continuar a girar.
“Eu também te amo.”
“Eu sei. Me beija”

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Jazz e Cosmopolitans

Jazz e Cosmopolitans

O som do baixo inunda meus sentidos. A melodia suave e descompassada flutua na noite e me carrega. Meu corpo nebula no chaise lounge. Meus olhos desfocados não vêem os carros passando apressadamente pela Avenida Paulista. Meus dedos amolecem ao levantar a taça. Meus lábios entorpecem e se liquefazem com o contato da bebida rosada. Minha mente sublima todo tipo de contato externo. O teclado dança e rodopia e eu me desfaço em vodca e suco de cranberry. Sinto fumaças e odores caros e pretensiosos. Ouço conversas inúteis e risadas confidentes. Noto lábios vermelhos e quadris volumosos. Tateio veludo azul e gelo amornado. Percebo o ácido na boca e o seco na garganta. Afundo neste lago turvo de música e me deixo levar na correnteza bravia que me molha e me arrebata e me afasta de mim mesmo. A batida forte da percussão me tira de meu devaneio e me foco pela primeira vez desde que entrei neste bar. Você entra pela porta de vidro e finalmente a melodia começa a fazer sentido. Sua indumentária agrada meus gostos mais selvagens. Seu perfume me entorpece e domina. Sua voz me acaricia e me aquece e me arrepia. Mas nada se compara a seu mais pungente atributo. Seu beijo forte e macio enfeitiça meus sentidos arrebatadora e orgasmicamente. Nossos Cosmopolitans brindam e celebram. Pois nesta noite, neste bar, nada e ninguém mais importa. Apenas eu, você e a lua crescente.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A busca

A busca

O cheiro de sálvia e hortelã adentra minhas narinas. O suave e levemente frio vento noroeste acaricia meu rosto. A grama verde e úmida sustenta meus pés e me dão base. O brilho da minha estrela patrona anuncia a hora da partida. A grande e misteriosa lua branca ilumina meu caminho recém descoberto. Meu corpo vibra a cada passo em direção ao meu destino. Cada centímetro que avanço dispara uma engrenagem da onipresente ampulheta e um pedaço de meu passado se desprende e se perde na imensidão deste campo. Não olho para trás ao sentir o calor deixado pelos flocos incandescentes de amargura e arrependimento. Meu rastro queima a ponta de meus cabelos soltos e depois é engolido pelas campinas de narcisos dourados e lírios translúcidos nesta senda sem retorno. Animais silvestres e salamandras selvagens me observam sem medo enquanto adentro seus territórios e me transformo em outro ser. Em certos momentos eu caio e me machuco. Sangro vermelho e adocicado por fora e quente e veludo por dentro. Mas em nenhum instante esmoreço em minha busca. Minha aparência externa continua a mesma para simples olhos mortais. Minhas mudanças internas somente notadas por magos e ciganas me dão força para continuar pelo meu objetivo maior. Cruzo vales e colinas verdejantes e primaveris. Atravesso florestas densas e extensas. Nado rios bravios e subo cachoeiras e cataratas perdidas. Corto blocos de gelo perpétuo e encontro aquilo que busquei por tantas eras mágicas. Minha alma purificada e banhada de toda a mentira da existência desvela as cortinas desta alcova diáfana. No cerne da mais profunda caverna. Guardado por ursos ferozes e generosos e fadas traiçoeiras e invejosas. Protegido por barreiras de fogo fátuo e correntes de diamante. Envolto em puro ácido e luz. Meu coração. Pela primeira vez em minha breve existência milenar toco meus mais sinceros sentimentos e emoções. E após tantas luas nesta jornada mística pela busca do meu EU, percebo que é hora de partir. Vou à busca do conhecido. Do comum. Do vulgar. Algo que nem todo o brilho mágico destas terras arcanas pode prover. Amor. A verdadeira caminhada começa agora.