terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Quero escrever um poema de amor

Da série: Velho mas não tanto (03/07)

Quero escrever um poema de amor

Quero escrever um poema de amor
Algo inspirador e profundo
Um suspiro dentro da tormenta
Um grito de candura e amor
O texto que todos irão comentar
E aplaudir pela genialidade

Portanto, devo repetir padrões
Um soneto me tornaria pedante
Assíndetos e metonímias perfeitas
Com 100 versos de rimas intercaladas
Todas pobres travestidas
E sem sentido real

Um poema concreto teria valor
Num mundo organogramico e lógico
Serei o coração, serei a flecha
Ou o tapa na cara do tarado safado?
Serei a palavra amor de ponta cabeça
Pulando do abismo literário

Mas antes de tudo isso
Serei a imagem literária petrificada
Amor, flor, dor, pavor, ardor
O velho poeta lusitano à margem do rio
O espectador passivo da pobreza humana
Que finge repúdio e falsa anarquia

Serei o amontoado de palavras chulas
Que chocarão os mais pudicos
A coleção de imagens artísticas
Sem concatenação entre si
E para escrever a ode à Atena pagã
Tomo da pena esferográfica

E enquanto me ocupo com isso
Me esqueço que o papel não importa
Que a poesia não está nas palavras bonitas
Nas construções rebuscadas
Nem no ego agigantado
De quem se diz poeta

Cada sorriso seu é um soneto
Seu corpo é decassílabo e rimado
Seu sexo é concretamente abstrato
E é disso que quero me alimentar
Que o mundo da poesia fiquei aos hipócritas
Vou partir para algo mais poético

Pois quero viver um grande amor!

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