Nó na gargantaSinto a brisa do mar em meu rosto. O cheiro salgado queima as minhas narinas por dentro. As ondas avançam com a cheia, molhando meus pés roçando a areia. A sujeira acumulada enrosca entre meus dedos. Meus braços cansados se penduram como galhos quebrados. Meu corpo nu se violenta na maré crescente. Meus olhos secos encaram a lua cheia saboreando meu flagelo contínuo. Meus pulsos cortados mancham a água salgada. Meu pescoço quebrado queima com o balanço da corda. Meu peito perfurado incha e esvazia na inutilidade da respiração. Meu coração entorpecido por pílulas não bombeia. Minha alma para sempre presa neste corpo permeado pelo sangue profano de Caim. Herança imposta sem meu consentimento pela qual devo pagar infinitamente. E tudo que posso fazer é esperar pelo retorno de meu algoz. Meu eterno, belo e sádico algoz.

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