terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O olhar

O olhar

Entro no meu carro e o cheiro dos bancos de couro me excita. Ao colocar a chave na ignição, o radio geme aquela música que me deixa no clima. Abro as janelas, o ar gelado de São Paulo penetra meus pulmões. O ronco do motor possante anuncia que eu estou na noite. No celular, as mensagens me dizem qual é a balada quente de hoje, e é para onde vou. Na porta, meu nome VIP deixa todos reles mortais na fila com inveja. Eu entro e já domino o lugar. A melhor mesa é minha e todos meus amigos me esperam na pista de dança. Corpos quentes se esfregam em mim no compasso da música e bocas me beijam e sugam minha nuca. Neste mar de lascividade, eu encontro um olhar próximo ao bar. Me observando. Me devorando. Me convidando. Eu levanto a camiseta e causo secura e desejo. Enquanto engole o resto do Jack Daniel’s, me sinaliza com a cabeça meu próximo destino. Pegada forte. Aperto firme. Língua safada. Mão esperta. Começa a descer meu zíper, mas é aqui que nos separamos. O gosto do whiskey fica na minha boca e me deixa permanentemente teso enquanto me acabo junto ao DJ. Sou beijado inúmeras vezes, mas não me dou conta. Minha mente presa na música e naquele par de lábios anônimos. Meus amigos me avisam que está na hora de deixar meu parque de diversões particular. Enquanto pago a comanda, busco aquele rosto singular, mas tudo que vejo é insosso e borrado. A cor se esvai. A música acaba. E eu estou só. Lá fora, o sol se prepara para sair. Aqui dentro, eu estou sozinho e vazio. No estacionamento, encontro meu carro e aquele olhar com jaqueta e botão da calça aberto. A cor volta. A música recomeça. Entramos no meu carro e o cheiro dos bancos de couro nos excita. Nós sorrimos, pensando em todas as perversões que faremos quando finalmente estivermos entre quatro paredes e em cima do nosso palco de cetim. O ronco do motor possante anuncia que, para nós, a noite apenas começou.

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