Terceiro ato
Todas as noites eu rezo
Rezo para todos os santos existentes
Na vã esperança que algum deles
Atenda aos meus chamados
Mas esta noite fria não será
A noite de minha graça
Ele vem porta adentro
Jogando o coldre no sofá
E gritando pela comida dele
Enquanto termino de fritar os bifes
Ele larga as peças de roupa pela casa
E vai ai banheiro se lavar
Ao recolher a bagunça
Vejo as manchas de sangue nas botinas
Mais uma pobre alma se foi
E já sei o que isso significa para mim
Fico a seu lado calada
Enquanto ele devora a comida
Me ignorando frente à televisão
Mas como a cerveja não estava gelada o suficiente
O primeiro tapa explode em minha face
Apenas a primeira agressão da madrugada
Eu já nem grito ou imploro para parar
Isso só priora as investidas
Me mantenho imóvel
Enquanto ele invade meu corpo
Meu sangue escorrendo pela minha pele
Vazando por feridas externas e internas
E eu apenas aguardo enlouquecidamente
O fim de mais um rompante desse monstro
Eu tenho nojo
Mas não tenho coragem
Mas não tenho coragem
Eu tenho ódio
Mas não tenho forças
Mas não tenho forças
Só consigo pedir aos santos
Pela noite em que ele retornará em medalha
E enquanto não recebo esse telefonema
Me mantenho desempenhando meu papel
Se quero sobreviver a mais uma noite fria

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